Pular para o conteúdo

A Toscana que se vive, não só se fotografa

“Toscana autêntica: turista caminhando por uma antiga vila de pedra durante uma experiência de turismo na Itália, longe dos lugares viralizados nas redes sociais.”

Na foto temos um turista caminhando por uma antiga cidade medieval de pedra , na Itália, durante uma experiência n longe dos lugares viralizados nas redes sociais.

Você pode ouvir o texto clicando no play abaixo.

Recentemente tivemos o privilégio de voltar à Toscana, um dos lugares que considero mais incríveis da Itália. No verão, o clima se assemelha bastante ao do nosso Nordeste brasileiro.  

Voltar à Toscana é sempre nostálgico. Meu primeiro contato com a região foi em 2013, durante a lua de mel. Guardo até hoje, bem de perto, Florença, Pisa, Vinci, Siena e Volterra — nas lembrancinhas que trouxemos e nas fotos que imortalizamos.

O desejo de conhecer a região nasceu de um clipe que assisti há anos: “Resta qui”, do tenor Andrea Bocelli. Aquela paisagem bucólica de uma cidade de pedra, o poço no meio da praça e a voz do tenor ecoando em um borgho italiano ficaram gravados na minha mente muito antes de eu vir morar na Itália. Sou totalmente suspeita para falar da Toscana.

Há algumas semanas voltamos para passar as férias e, ao mesmo tempo, fazer algumas filmagens. Queríamos entender como anda o turismo depois do boom nas redes sociais e o que esse excesso de fotos “instagrámáveis” realmente influenciou na vida local.

Em parte nos decepcionamos; em outra, nos alegramos. Vimos jovens empreendedores preparados para receber turistas, imprensa e profissionais de comunicação. Por outro lado, encontramos uma realidade mais fechada, fruto de problemas reais causados por quem chega apenas com a câmera. Muitos profissionais do trade já sabem diferenciar claramente uma empresa de comunicação — que respeita e publiciza o local de forma ética — de um “influenciador” que, por ter milhares de seguidores, acredita que pode invadir propriedades, entrar em lojas sem permissão, desrespeitar pessoas ou barganhar permutas.

O Direto da Itália sempre pagou por suas experiências. Como empresa brasileira de turismo e comunicação, fazemos questão de ser éticos e de passar informações corretas.

Encontramos uma parte do setor cansada de quem fotografa, viraliza e gera prejuízo; de quem não pede autorização e já entra filmando, expondo pessoas sem respeitar a **Lei da Privacy italiana**. Essa legislação, baseada no GDPR (Regolamento UE 2016/679, recebido na Itália pelo D.Lgs. 101/2018) e na Legge sul diritto d’autore (artigos 96 e 97), determina que o retrato de uma pessoa não pode ser exposto, reproduzido ou usado comercialmente sem consentimento, salvo exceções específicas. Filmar ou fotografar pessoas identificáveis sem autorização, especialmente para redes sociais, pode configurar violação de dados pessoais.

Casal sentado em banco de madeira sob pinheiros contemplando a paisagem das colinas da Toscana em dia ensolarado

Na foto, a Toscana que se vive, não só se fotografa. Momentos reais, longe do excesso de conteúdo das redes sociais.

Aqui se separa bem o trabalho de profissionais da comunicação do de muitos influencers. Análises de relações públicas e comunicação mostram que o profissional costuma ter formação, ética e foco em credibilidade de longo prazo. Já o influencer, em muitos casos, atua principalmente pelo alcance e pelo engajamento imediato. A confusão entre os dois tem gerado atritos reais.

Dados de destinos italianos ilustram o problema. Na Costa Amalfitana, residentes relatam que o excesso de conteúdo em redes sociais transformou vilarejos em “parques temáticos”. Em Veneza, Florença e no Lago de Como, o overtourism amplificado por posts virais elevou aluguéis, reduziu a oferta de moradia e gerou fadiga local. Casos de invasão de propriedades e gravações sem permissão têm aumentado a desconfiança.

Alerta a quem deseja vir à Itália e trabalhar dessa forma: respeite a propriedade privada, peça autorização antes de filmar, não invada espaços, não exponha pessoas sem consentimento e não exija nada de graça. Quem age com ética encontra portas abertas. Quem não o faz, encontra portas fechadas — e com razão.

Visita a fábrica do Mulino Val d'Orcia na Toscana.

Marco Lamb com a guia bilíngue (Inglês e Espanhol) a Sra. Martina Giannetti, durante o tour guiado na fábrica do Mulino Val d’Orcia, Toscana.

Vale reforçar que nosso intuito não é atacar a figura do influenciador. Existem influenciadores sérios e éticos que trabalham com respeito e responsabilidade. Nossa crítica se dirige especificamente àqueles que desrespeitam propriedades, pessoas e as regras locais.

Apesar desses atritos, o que encontramos de melhor na Toscana foram exatamente os produtores que entenderam o valor de uma comunicação ética e verdadeira.  

O Mulino Val d’Orcia (Amadeo Grappi) e a empresa agrícola Nenci (Paolo Nenci) são exemplos nesse campo.

Sr. Amadeo Grappi, proprietário da empresa agrícola Mulino Val d'Orcia.

Na foto, o proprietário do Mulino Val d’Orcia, Sr. Amadeo Grappi, no interior da fábrica.

O Mulino Val d’Orcia oferece ao público um percurso guiado pela fábrica (que pode ser adquirido no site da empresa). O viajante amante de pasta italiana acompanha todo o processo de produção da pasta bio: da seleção dos grãos à técnica de cultivo, armazenamento, maquinário, formatos e tipos de massa, até o produto final — com explicações em italiano, inglês e espanhol. Uma experiência sensacional, que pode terminar (como foi o nosso caso) no restaurante da irmã do proprietário, o Castello di Spedaletto, de Laura. O restaurante fica em um castelo medieval e serve a pasta e os pães que o visitante acabou de ver sendo produzidos — agora com um sabor ainda mais especial por conhecer a origem dos grãos. Ao lado há uma loja charmosa onde é possível adquirir os produtos do Mulino para fazer em casa receitas tipicamente italianas. Tudo o que é servido no restaurante, do vinho à sobremesa, é de produção própria. Simplesmente perfeito: uma experiência completa, da seleção dos grãos à mesa.

Clique na imagem abaixo para acessar o site da empresa Mulino Val d’Orcia.

Sr. Paolo Nenci, proprietário da Empresa Agrícola Nenci, localizada na Toscana em Chiusi.

Na foto, o Sr. Paolo Nenci, proprietário da empresa agrícola Nenci, no espaço de degustação.

A empresa agrícola Nenci também tem seu diferencial. Mesmo sendo menor que as grandes da região, no local das degustações há um espaço exclusivo para quem viaja de motorhome, com infraestrutura completa para estacionar com segurança e degustar um bom vinho acompanhado de tábua de frios de produtores locais e parceiros. O Sr. Paolo Nenci nos contou que a empresa foi fundada pelo avô, hoje com 93 anos, e que as técnicas de cultivo das vinhas mudaram muito ao longo do tempo. A Nenci produz cervejas artesanais, vinhos para diferentes paladares, mel e azeite de oliva. Foi premiada no AgriNext Awards&Conference em Dubai, em 2024, pelo azeite extra virgem (que, infelizmente, estava esgotado e não pudemos provar).

Imagem do premio que a empresa agricola Nenci ganhou em Dubai.

Na foto, o prêmio concedido à empresa agrícola italiana Nenci, em Dubai.

Os pacotes de degustação podem ser reservados no site e têm preços acessíveis e opções variadas. O local é íntimo e menor que os grandes espaços de degustação. O grande diferencial é conversar com quem realmente produz o azeite, o vinho e a cerveja artesanal, entendendo o processo desde a semeadura até o produto final. O Sr. Paolo é pesquisador, busca constantemente diferenciais e fala inglês com fluência. Os acompanhamentos são abundantes, locais e deliciosos por serem frescos. Uma experiência que recomendamos fortemente.

Clique na imagem abaixo para acessar o site da empresa Nenci.

Marco Lamb no restaurante Castello di Spedaletto, de Laura, degustando dos produtos do Mulino Val d'Orcia.

Na foto, Marco Lamb degustando produtos frescos do Mulino Val d’Orcia no Castello di Spedaletto, de Laura.

Concluo dizendo que turismo de experiência de verdade é aquele que não apenas marca uma viagem, mas permanece depois de uma boa conversa com quem produz. É quando se aprende a respeitar a história de cada família e o caminho de cada nova geração.

Nós saimos enriquecidos de alma de cada lugar. Foram experiências maravilhosas!

Aqui vai uma versão mais emocional:

Se a experiência que você viveu não te tocou, não deixou nenhum eco dentro de você, não mudou nem que fosse um detalhe na forma como você enxerga o mundo… então não foi experiência. Foi só passagem.

Porque uma viagem de verdade não se guarda só na memória das fotos. Ela fica na pele, no olhar, no jeito de voltar para casa diferente.

É por isso que insistimos tanto: comunicação e turismo só fazem sentido quando existem respeito e verdade. Só assim o encontro se transforma em algo que permanece.

Fontes consultadas:

– Italy Recording Laws 2025: One-Party Consent, Penalties and GDPR – https://www.recordinglaw.com/world-laws/world-recording-laws/italy-recording-laws/  

– GDPR e fotografia, ecco tutte le regole per non sbagliare – Cyber Security 360 – https://www.cybersecurity360.it/legal/privacy-dati-personali/gdpr-e-fotografia-ecco-tutte-le-regole-per-non-sbagliare/  

– Image Releases in Italy – DANDI – https://www.dandi.media/en/privacy-rights-release/  

– Privacy | Riprese in luoghi pubblici – Soardi Studio Legale – https://www.soardistudiolegale.it/2024/08/24/privacy-riprese-in-luoghi-pubblici-una-guida-completa-tra-diritti-doveri-e-giurisprudenza/  

– The New PR: ‘Influencism’ Versus Journalism – Forbes – https://www.forbes.com/councils/forbescommunicationscouncil/2022/05/25/the-new-pr-influencism-versus-journalism/  

– How Influencer Relations Differ from Public Relations – HMI Marketing – https://hmi.marketing/how-influencer-relations-differ-from-public-relations/  

– Did Influencers ruin the Amalfi Coast? – Vancouver Sun – https://vancouversun.com/travel/did-influencers-ruin-the-amalfi-coast  

– How Mass Tourism Is Swallowing Lake Como – Worldcrunch – https://worldcrunch.com/food-travel/lake-como-overtourism-italy/  

– Negative influencers – The problem of overtourism in Italy – Segmento – https://www.segmento.com.au/post/negative-influencers-the-problem-of-overtourism-in-italy

A Toscana que se vive, não só se fotografa