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Undertourism na Itália: descubra uma Itália além dos destinos tradicionais

Foto: Divulgação | Direto da Itália – Lago de Braies

Talvez você já tenha imaginado sua viagem à Itália muitas vezes.

Uma fotografia diante do Coliseu, uma caminhada pelas ruas de Veneza, a Ponte Vecchio, em Florença, uma praça histórica, uma fonte famosa, uma paisagem que parece ter saído de um cartão-postal. E, sinceramente, não há nada de errado nisso.

Roma continua sendo Roma, Veneza continua fascinante e Florença continua guardando alguns dos maiores tesouros da arte mundial.

Mas existe uma pergunta que começa a fazer cada vez mais sentido para quem pensa em viajar pela Itália:

E se a experiência que você procura estiver justamente em outras cidades que nem sequer aparecem nos roteiros turísticos convencionais?

É nesse ponto que entra uma palavra que talvez você ainda não tenha ouvido muito: undertourism.

O conceito vem ganhando espaço no turismo italiano nos últimos anos e ajuda a explicar uma mudança interessante no comportamento dos viajantes: a procura por lugares menos congestionados, experiências mais próximas da cultura local e destinos que, muitas vezes, ficam fora dos roteiros mais tradicionais.

E o mais interessante é que essa mudança não acontece apenas no discurso.

Dados recentes mostram que os pequenos municípios italianos podem ter um papel cada vez maio

O que é undertourism?

De maneira simples, undertourism é a procura por destinos menos disputados pelo turismo de massa.

Em vez de concentrar toda a viagem nas cidades e atrações mais famosas, o viajante também começa a olhar para pequenos municípios, cidades menores, áreas rurais, regiões montanhosas e territórios onde a experiência turística está mais ligada à vida cotidiana.

Entretanto, há uma diferença importante. Undertourism não significa simplesmente procurar um lugar vazio.

A ideia é se aproximar do lugar, das pessoas e das histórias que fazem parte dele. É conhecer um produtor de vinho, entrar em uma pequena oficina artesanal, provar uma receita tradicional preparada por quem vive naquela região, caminhar por um borgo histórico ou simplesmente passar alguns dias em uma cidade pequena, sem a sensação de estar correndo de uma atração para outra.

É desacelerar. É menos sobre “onde ninguém está” e mais sobre “o que posso viver e levar de transformador daqui?”

E talvez seja justamente isso que esteja tornando essa tendência, na Itália, tão interessante.

Foto: Divulgação | Direto da Itália


O turista está procurando uma Itália diferente?

Um levantamento divulgado pela Confartigianato em agosto de 2026 aponta que 21,3% dos turistas demonstram preferência por experiências de viagem longe das áreas mais movimentadas e por destinos menores, mostrando também interesse pelo artesanato, pelas empresas e pelas produções locais. (Confartigianato Imprese)

O número chama atenção porque mostra que o interesse por esse tipo de viagem já representa uma parcela relevante dos viajantes. E aqui existe algo que vale a pena observar: talvez o turista não esteja deixando de gostar dos grandes destinos. Ele simplesmente esteja começando a perceber que a Itália não termina nos lugares que aparecem primeiro nas pesquisas na internet ou nas fotografias mais compartilhadas nas redes sociais.

A Itália que ganha destaque nas redes é apenas uma parte de um país com uma história milenar. Por trás dela, existe uma outra Itália, formada por pequenas cidades, comunidades locais com grande potencial turístico, produtores, artesãos, restaurantes familiares que preservam tradições, paisagens rurais, montanhas, vinhedos e costumes que continuam fazendo parte da vida cotidiana do país.

É essa Itália que o undertourism ajuda a colocar em evidência — e que nós, particularmente, tanto apreciamos.

Pequenos municípios: uma força que muita gente ainda não percebeu

Em janeiro de 2026, uma análise do instituto Demoskopika, divulgada pela ANSA, estimou que mais de 2.600 pequenos municípios italianos com vocação turística poderiam registrar mais de 21,3 milhões de chegadas e cerca de 79,9 milhões de presenças ao longo do ano. (ANSA.it)

As estimativas representavam um crescimento de 5,3% nas chegadas e 6,9% nas presenças em relação a 2025, com uma permanência média estimada em 3,7 dias. (Demoskopika)

Mas há um dado ainda mais interessante para entender a dimensão desse movimento. Quando considerados em conjunto, esses pequenos municípios poderiam alcançar volumes de turismo comparáveis aos registrados por cinco grandes cidades italianas muito conhecidas: Verona, Veneza, Florença, Roma e Nápoles. (Demoskopika)

Isso não significa, evidentemente, que uma pequena cidade italiana, individualmente, receba o mesmo número de visitantes que Roma ou Veneza. A comparação considera o conjunto desses pequenos municípios.

E é justamente aí que está a surpresa: o turismo fora dos grandes centros está longe de ser pequeno quando olhamos para ele como um todo.

Então estamos diante de uma nova Veneza?

Não. E seria um erro interpretar o undertourism dessa maneira, já que a proposta não é transformar pequenos municípios em novas versões das cidades que já sofrem com grandes concentrações de visitantes.

Aliás, isso acabaria reproduzindo o mesmo problema em outro lugar. A grande oportunidade está justamente em fazer diferente, distribuindo os fluxos turísticos pelo território de maneira mais equilibrada e permitindo que os benefícios cheguem também às comunidades que tradicionalmente ficam fora dos principais circuitos.

Isso pode significar mais movimento para restaurantes, hospedagens, produtores, lojas, artesãos, guias e pequenos negócios. Mas existe também outro aspecto que não aparece apenas nos números: a experiência do viajante e a maneira como ele passa a perceber e se relacionar com o lugar que visita.

Uma pesquisa divulgada pela ANSA em julho de 2026 ajuda a dimensionar esse potencial. Segundo o estudo apresentado no encontro da Confturismo, existem 2.137 municípios de áreas internas com vocação turística, mas apenas cerca de 16% deles — aproximadamente 350 municípios — conseguem atualmente expressar seu potencial de maneira considerada eficaz. (ANSA.it)

A estimativa é que um crescimento sustentável dos fluxos nesses territórios possa gerar, nos próximos cinco anos, cerca de 1,6 bilhão de euros adicionais em PIB e 14 mil novos postos de trabalho. (ANSA.it)

Ou seja: estamos falando de turismo, mas não somente de turismo. Estamos falando também de desenvolvimento local e de uma maneira mais equilibrada de fazer com que os benefícios da atividade turística alcancem diferentes partes do território.

E talvez essa seja a parte mais bonita de tudo. Quando você deixa um pouco de lado a lista tradicional de “lugares que preciso conhecer”, começa a descobrir um leque de outras possibilidades: uma pequena vinícola, uma oficina artesanal, um restaurante que preserva uma receita familiar, um mercado local, uma festa tradicional, uma igreja escondida, uma estrada entre montanhas, um produtor de azeite ou até mesmo uma conversa inesperada em uma praça.

Nada disso precisa aparecer entre as atrações mais fotografadas da Itália para fazer parte de uma grande viagem. Talvez esteja justamente aí a diferença entre visitar um lugar e vivenciar um território: permitir-se novas experiências e descobrir tudo o que elas podem transformar na maneira como enxergamos uma viagem.

Foto: Divulgação | Direto da Itália

Você não precisa abandonar seu roteiro tradicional, basta manter a mente aberta

É importante fazer uma distinção: undertourism não significa abandonar Roma, Veneza ou Florença. Se você sonha em conhecer Roma, vá a Roma. Se Veneza está na sua lista, conheça Veneza. Se quer admirar as obras de Michelangelo em Florença, não há motivo para abrir mão disso. O undertourism não precisa ser uma oposição ao turismo tradicional; pode ser um complemento. Imagine, por exemplo, uma viagem que combine alguns dias em uma grande cidade com outros dias em um município menor. Em vez de passar dez dias tentando encaixar dez destinos famosos, talvez seja interessante permanecer mais tempo em uma região e explorar aquilo que existe ao redor. Você pode conhecer o cartão-postal e, depois, descobrir o território que existe além dele. Vá à Veneza, mas não pense que a sua viagem pela região precisa terminar em Veneza. Conheça Florença, mas reserve um tempo para olhar para a Toscana que existe além do centro histórico. Visite Roma e, quando possível, descubra também pequenas localidades do Lácio. É uma maneira diferente de montar um roteiro e, em muitos casos, pode ser também uma maneira mais tranquila de viajar. Não existe uma fórmula única para encontrar destinos menos turísticos na Itália, mas algumas escolhas podem mudar completamente a experiência. Uma delas é simplesmente olhar além das cidades mais famosas. Pesquise pequenos municípios e borghi da região que você pretende visitar e veja quais possuem patrimônio histórico, gastronomia, vinhos, natureza ou tradições que despertem seu interesse. Outra possibilidade é procurar experiências. Em vez de pesquisar somente “o que fazer em determinada cidade”, procure também por produtores locais, mercados, vinícolas, oficinas artesanais, festas tradicionais, rotas gastronômicas e atividades ligadas ao território. E existe ainda uma mudança simples, mas poderosa: diminua o ritmo. Uma viagem pela Itália não precisa ser uma competição para descobrir quantas cidades você consegue visitar. Às vezes, ficar três dias em uma pequena cidade pode proporcionar muito mais contato com o lugar do que passar apenas algumas horas tentando cumprir uma lista de atrações.

Talvez esse seja justamente um dos maiores méritos do undertourism: nos fazer olhar novamente para algo que sempre esteve ali. A Itália dos grandes monumentos não desapareceu, e nem precisa desaparecer. Mas existe uma Itália inteira entre um cartão-postal e outro. Uma Itália de pequenas comunidades, histórias familiares, receitas regionais, vinhos, artesãos, paisagens, festas, pessoas e lugares que talvez você nunca tenha visto em uma propaganda de viagem. E os números recentes mostram que essa Itália menos evidente possui não apenas valor cultural, mas também um potencial turístico e econômico significativo. As projeções para os pequenos municípios e as análises sobre as áreas internas apontam para uma possibilidade de distribuir melhor os fluxos turísticos e criar novas oportunidades para os territórios. (Demoskopika)

Mas existe uma cautela importante. Não precisamos transformar cada pequeno borgo em uma atração turística de massa. Se o objetivo do undertourism é justamente buscar experiências mais equilibradas, a expansão precisa acontecer com planejamento, infraestrutura e respeito às comunidades que vivem nesses lugares. Caso contrário, o destino que hoje é procurado por ser tranquilo poderá amanhã enfrentar exatamente os mesmos problemas dos lugares dos quais os viajantes estavam tentando escapar.

Talvez seja esse o ponto mais interessante de tudo. O undertourism não precisa ser entendido como uma moda ou como uma tentativa de encontrar o “novo destino secreto” da Itália. Ele pode representar simplesmente uma mudança de olhar. Em vez de perguntar apenas “o que eu preciso conhecer?”, começar a perguntar “o que eu gostaria de viver?” Essa pequena mudança pode transformar completamente um roteiro. Porque a Itália é muito maior do que seus cartões-postais. Roma, Veneza, Florença, Milão e tantos outros destinos famosos continuam merecendo ser conhecidos. Mas existe uma Itália inteira esperando entre eles. E talvez a próxima viagem seja justamente uma oportunidade de descobri-la.

A Itália não termina onde termina o cartão-postal.